porque liberto meu caos numa tentativa de me ser em paz porque eu tenho milhões de dúvidas sobre o mundo e eu não me importo de me impelir ao pulso veloz e calmo que trago no peito inquieto e ameno. eu enlouqueço e tenho insônias de pura epifanias e paro as 3 da madrugada para colocar isso num papel porque é de mais, o pensamento é de mais, o grito é alto e ao mesmo tempo sinto uma necessidade voraz de libertá-lo e o faço de maneira silenciosa e pacífica, porque o caos é a única maneira que encontrei de me aquietar com minha inquietude, de conviver com minhas insanidades, de lidar com todas as minhas dúvidas e sede de mundo, de universo, ânsia de infinitos…
esse nó. esse emaranhado de coisas. esse peso em quilos de saudade e exalando culpa. algo em mim não me deixa ser feliz, como eu posso ser feliz com tanta coisa ruim acontecendo ao meu redor? como eu posso ser feliz com tanta coisa ruim acontecendo dentro de mim? não posso. é errado. felicidade é pra quem pode. eu não posso. eu não sei. de nada. nem de mim se perguntares quem sou pra deixar de ser: eu não sou nada. até fui alguma coisa outrora, mas o tempo levou tudo que eu tinha. sem drama. desde então parei o relógio da sala e ele marca quatro da tarde de um domingo se eu não me engano. não me engano porque sou franca comigo, sou fraca e reconheço. não aguento o trampo. não aguento as coisas como elas são. não me aguento no meu real tamanho, eu até poderia ser muita coisa. mas não me permito. me rendi como já falei aos caprichos que o tempo exige de deixar as coisas pelo caminho. caminho esse que independente da curva que tomamos, das pedras que topamos, do quanto conseguimos ou perdemos damos na morte de braços abertos a nos esperar, com uma baforada quente e um hálito de fim. mas ela vai ter que esperar enquanto eu me resolvo e me desato pra me emaranhar em alguma duvida de novo.
eu sou um nada ambulante. uma sombra de alguém. as pegadas de ninguém. e quero deixar de ser.
Morro do que há no mundo: do que vi, do que ouvi. Morro do que vivi. Morro comigo, apenas: com lembranças amadas, porém desesperadas. Morro cheia de assombro por não sentir em mim nem princípio nem fim. Morro: e a circunferência fica, em redor, fechada. Dentro sou tudo e nada.
Você é aquilo que ninguém vê. Uma coleção de histórias, estórias, memórias, dores, delicias, pecados, bondades, tragédias, sucessos, sentimentos e pensamentos. Se definir é se limitar. Você é um eterno parênteses em aberto, enquanto sua eternidade durar.
Estamos tão exaustos que dormimos, mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não seremos substituídos. Os aviões lançam projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas – pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno.
A solução, decidi, era não pensar. Mas como se faz para parar de pensar?
Promessa é troca, mesmo os religiosos dizendo que não. Amor é troca, e os solitários confirmarão. Boas ações são trocas, busca de salvação. Sexo é troca, e todo mundo vai me dar razão. Ninguém sorri a espera de uma lágrima. A retribuição tem que ser maior ou do mesmo valor, sempre. Aqui se faz, aqui se paga. Olho por olho, e dente por dente. Altruísmo não é qualidade, é raridade. Egoísmo não é defeito, é condicionamento. Assim o planeta gira, claro, em troca da luz do Sol e passagem de tempo. As flores só brotam para serem admiradas, exaltadas e roubadas por apaixonados. Os apaixonados só se apaixonam para se sentirem completos, extasiados, eternizados nos romances que quase sempre terminam em morte. A morte é a única que não espera nada em troca, pois quem algo a daria? Não se pode comercializar com o fim. E não sobrou nada nisso tudo para mim. O mundo é uma barganha, e ainda não sei qual é minha moeda de troca.
Severinar.
Porque nossos sonhos estão largados nas páginas dos livros e nas gavetas empoeiradas, cheias de trambolhos e coisas nunca usadas, tecidas e amargadas pelo tempo. Porque sou varrido pelos sopros desconcertantes como folhas secas no ponto alto do outono. Porque eu sou como uma estrela perdida entre as milhares, nunca vista, nunca admirada, nunca contemplada. Meu brilho se apagou para sempre e o que me resta é sufoco. Porque sou como a morte anunciada nos becos, como o estalar ensurdecedor das explosões cósmicas, como o senhor surdo e mudo que passa fome e gesticula com as mãos, pedindo a alguma divindade um pouco de paz. Porque eu sou por si só os blues, as musicas do Caetano e os poemas tristes. Porque sou como o silêncio que dita uma voz potente, e também o cala, o cessa. Porque a guerra é infinita e a paz desarmada é impossível, ouça os tiros baby. Porque não sei diferenciar o dia da noite e fico horas a fio agarrado aos meus joelhos me protegendo de um fim de mundo tão próximo que me causa tonturas. Porque o abismo tem gritado meu nome e o salto é provável. Tudo é queda. Tudo é um acúmulo de ódio calmo e dor, muita dor. Tudo é você que me ferve a sanidade e arranca a lucidez, como se eu tivesse perdido os dentes da frente numa luta feia e ensanguentada. Não sei se continuo vivendo a base de lembranças podres, ou morro. Morro no berçário de constelações, morro só, morro feliz. Não sei se minha batalha interna terá um término algum dia, mas sei que entre as espadas e o sangue inocente que jorra sem qualquer controle, o amor se esvai. O amor se esvai de mim na mesma velocidade que eu danço nesse campo minado. O amor se esvai de maneira fúnebre e intensa, e eu choro com desespero visível e sem controle da voz. O amor de esvai entre as frestas dos meus olhos, entre meus cortes profundos e entre meus rombos no peito. O amor se esvai nos fins de semana tediosos e nas cidades fantasma. O amor se esvai, o amor corre entre as ruas, o amor fura minhas barreiras e minhas trilhas sonoras, o amor preenche e bate a porta na minha cara. Assim como você fez no dia em que eu quase me joguei da janela, do abismo, do mundo. Assim como os dias que eu lhe disse que, quando os sorrisos forçados lhes são negados, a melancolia de esquina roubam-lhe os pulsos ensanguentados com tinta. Assim como meu amor pelo caos, e sua mania de ser ausente. Assim como nós, nossa maneira de não ser.
Entre todos os meus colapsos, minhas dores infinitas e toda essa liberdade esgoelada pelas gargantas rebeldes dos meus demônios, você é o fim mais poético e doloroso de todos.
Sinto saudade.
Só queria que você compreendesse meus parênteses. Eles são firmes e soltos. Tão belos quanto teus comentários cinéfilos. Tão belos quanto Billy Elliot sapateando em instantes de frustração.
( Perdão, nem eu suporto meus léxicos coração, mas eles me são. Vão ou não. Só são.)
Anna Flávia
[ Eu continuo descabida, na exatidão do completo que me faz mal… ]
Alguém já ouviu falar no homem das mil caras? Dizem que ele pode ser qualquer pessoa que quiser, basta se espelhar em alguém ou simplesmente retribuir a personalidade que a tal pessoa irá usar para comunicar-se com ele e por incrível que pareça, acaba sendo a mesma coisa. Se alguém é frio com ele, ele será frio com essa pessoa. Se alguém é dócil com ele, ele será dócil com essa pessoa. Se alguém age de má intenção para com ele, ele também agirá de má intenção para com a pessoa. As pessoas dizem que isso é uma forma “errada” de se viver, pois devemos mostrar aquilo que somos realmente. Eu, já penso o contrário, porquê acho isso totalmente certo. É uma maneira de se “proteger” ou até mesmo de tornar algo mais “misterioso” e olhe que um belo mistério desperta curiosidade, não é mesmo? Vivo da mesma forma que ele. Tenho minhas mil caras. Para cada pessoa, me mostro alguém diferente. Não tem alguém que me reconheça de verdade, talvez nem eu mesmo e acho que não são apenas mil caras e sim mil e uma. Essa última, nunca foi desvendada por completa e acho que é a minha real personalidade, a minha verdadeira face e que talvez seja uma junção de todas elas e eu apenas não consiga assimilar isso, pois sou feito de momentos e são esses momentos que não consigo juntar em um, impossibilitando assim o meu próprio reconhecimento perante um espelho ou perante minha alma.
Tu corres a meu lado
na direção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.
José Miguel Silva (1999)